04/03/2026
Rui Conceição, Diretor do LeiriaShopping: "Numa crise, são as pessoas que fazem a diferença"
A tempestade Kristin colocou o LeiriaShopping perante uma crise sem precedentes, obrigando a decisões rápidas, coordenação intensa e uma resiliência exemplar. Nesta entrevista, o diretor do centro revela como se gere um ativo comercial em plena catástrofe, os maiores desafios enfrentados e o impacto do papel comunitário na reconstrução de Leiria.
Como é gerir ativos comerciais mediante uma situação de crise, originada por uma catástrofe natural?
A devastação verificada na cidade e região de Leiria, como consequência da tempestade Kristin, não tem precedentes. Considerado o mais violento fenómeno meteorológico de que há memória, a dimensão dos danos com que nos deparámos em toda a região obrigou-nos a uma resposta imediata e devidamente estruturada. A prioridade absoluta foi, desde o primeiro momento, garantir a segurança de pessoas e bens. Apenas após garantir condições mínimas de segurança faria sentido pensar em retoma de atividade.
Na prática, isso significou tomar decisões rápidas, apenas com acesso a informação limitada, ou seja: avaliar danos em tempo real, acionar os meios disponíveis, gerir expectativas de lojistas, proprietários e clientes, e fazê-lo em simultâneo, sem margem para aguardar diagnósticos definitivos.
A gestão de um centro comercial numa situação de crise não é linear. Trata-se de articular uma sucessão de prioridades que se sobrepõem e que exigem um permanente reajuste. O ensinamento mais significativo desta experiência consiste na validação de uma convicção já existente: perante os limites dos processos e planos, é a equipa de gestão que se revela o fator decisivo e diferenciador.
A união e o compromisso observados em pessoas que foram além das suas funções, foram determinantes para que o centro comercial voltasse a funcionar em segurança, permitindo a sua reabertura, ainda que de forma faseada, nas condições e no prazo em que o fizemos no LeriaShopping.
Quais são os maiores desafios que se enfrentam?
Os desafios numa situação destas são múltiplos e surgem em simultâneo, o que por si só constitui um desafio de gestão significativo.
Do ponto de vista operacional, o impacto mais imediato foi a extensão dos danos materiais, que a par com a interrupção de sistemas críticos condicionou de forma direta a capacidade de reabertura. Destacaria em especial a total ausência de comunicações, que dificultou ainda mais o acesso a informação nuclear para a tomada de decisão, bem como a coordenação das equipas em cenários de constante evolução.
A coordenação de equipas foi outro desafio particularmente exigente. A grande maioria dos colaboradores que diariamente trabalham connosco (prestadores de serviço e lojistas) são naturais das zonas mais afetadas e enfrentavam situações pessoais muito delicadas. Também eles sofreram danos nas suas habitações, sofreram pela ausência de comunicações e fornecimento de energia durante largos períodos de tempo.
Numa situação de catástrofe regional, a procura por meios técnicos e humanos especializados é imediata e generalizada pois não fomos os únicos afetados.
A escassez de recursos disponíveis no mercado, aliada à urgência que a situação impunha, obrigou-nos a uma gestão muito ativa de prioridades e de relações com fornecedores.
Gerir expectativas de reabertura com transparência, apresentando um plano realista em vez de promessas difíceis de cumprir, foi uma das decisões mais importantes que tomámos.
E depois há o desafio de manter a equipa motivada e focada ao longo de semanas de pressão contínua e sem um horizonte completamente definido. A superação deste desafio - da gestão emocional – foi um dos mais determinantes para o resultado final que obtivemos aqui no LeiriaShopping.
Da sua experiência, que ensinamentos e alertas é possível deixar ao setor para se fazer face a uma catástrofe?
O que distinguiu a tempestade Kristin foi a sua magnitude inesperada. Os danos provocados foram de uma dimensão sem paralelo.
Os planos são essenciais, mas a capacidade de ir além deles é crucial. A resiliência operacional e a capacidade de adaptação com critério a um cenário nunca visto foi fundamental para, gradualmente, superarmos etapas com vista à reabertura do LeiriaShopping.
Como comentei anteriormente, numa crise de escala regional, a procura por recursos especializados é imediata e simultânea. O reforço de sistemas de emergência que permitam manter as comunicações entre as equipas no terreno e grupo de gestão de crise é fundamental. Ter relações estabelecidas, histórico de trabalho conjunto faz uma diferença real na velocidade de resposta. Quanto aos princípios, esta experiência confirmou que a transparência com todas as partes, lojistas, proprietários, clientes e comunidade, é sempre o caminho mais eficaz, mesmo quando as notícias não são favoráveis. As pessoas gerem melhor a incerteza quando são tratadas com honestidade.
A equipa no terreno vale mais do que qualquer processo. Os processos orientam, mas são as pessoas que resolvem — e numa crise, resolvem sobretudo aquelas a quem foi dada autonomia e responsabilidade no dia a dia.
A relação com a comunidade local é um ativo intangível de valor imenso. Um centro comercial não é apenas um ativo imobiliário, é uma referência no tecido urbano e social da cidade. Em Leiria, numa altura em que toda a região estava a recuperar, sentimos isso de forma muito concreta. A forma como respondemos, e a rapidez com que o fizemos, teve um impacto que foi muito além do negócio.
De que forma os centros comerciais podem ser agentes ativos no apoio à Comunidade?
O LeiriaShopping é mais do que um centro comercial. É um ponto de encontro, uma referência regional. A tempestade Kristin deixou isso muito claro
A preocupação imediata de assegurar o acesso, ainda que num contexto de operacionalidade muito difícil, a bens essenciais como o hipermercado e farmácia, foi fundamental e significou muito para a comunidade.
Numa altura em que Leiria era a zona mais afetada do país e em que a população procurava informação, orientação e alguma estabilidade, o LeiriaShopping assumiu naturalmente o papel de ponto de referência local. Num momento em que muito estava em colapso, ter um espaço reconhecido e de confiança a funcionar como fonte de informação e comunicação teve um valor que vai muito além do comercial
Considero que, nestas crises os Centros Comerciais têm um papel de serviço público imprescindível e, no período de recuperação, procurámos estar à altura do momento. Desenvolvemos várias iniciativas de solidariedade e de recolha de bens para apoiar as famílias mais afetadas. Aproveito para endereçar uma palavra muito especial de agradecimento aos colegas de outros centros comerciais que angariaram desde consumíveis a materiais de construção que foram entregues para distribuir pelas pessoas mais afetadas
Em simultâneo, decorreu nas redes sociais do LeiriaShopping, uma ação de crowdfunding com o propósito de recolha de fundos para auxiliar na reconstrução do Quartel dos Bombeiros Voluntários de Leiria que foi severamente atingido. A generosidade demonstrada pelos que de Norte a Sul participaram, suplantou as expectativas, e é uma importante ajuda a reerguer aqueles a casa dos soldados da paz.
Mas talvez o gesto mais simbólico, e simultaneamente mais concreto, tenha sido a retoma da operação. Reabrir as portas, ainda que de forma gradual e condicionada, foi um sinal de normalidade para uma cidade que precisava dela. Há uma dimensão psicológica na reabertura de um espaço de referência que não deve ser subestimada. Diz à comunidade que a recuperação da cidade e da região está em curso, vai acontecer e faz-se em conjunto.
Que mensagem gostaria de deixar à Comunidade que o LeiriaShopping serve e a todos os vossos visitantes
Leiria viveu, e continua a viver, dias muito difíceis. A tempestade Kristin deixou marcas na memória coletiva desta região, na nossa cidade, nas famílias, nas empresas, e o LeiriaShopping não foi exceção. Sabemos o que significa enfrentar uma situação desta dimensão, porque também a vivemos.
A minha principal mensagem é de gratidão: a todos os que nos visitam, aos leirienses e a todos os que fazem desta região a sua casa, muito obrigado! Obrigado pela compreensão nos dias em que não conseguimos estar a 100%, obrigado pela paciência durante a recuperação e obrigado por continuarem a escolher-nos. Esse gesto, aparentemente simples, foi para nós um sinal claro de confiança que não esquecemos. Agradeço-vos em meu nome e pessoal, mas também em nome da minha equipa.
A recuperação da cidade e da região não acontece de um dia para o outro, mas acontece. E acontece porque as pessoas e as organizações que a compõem se recusam a ficar paradas. O LeiriaShopping é parte desta cidade e assume esse papel com responsabilidade e convicção. Estamos aqui, não apenas como espaço comercial, mas como parte do ADN desta comunidade.
O futuro reserva-nos um LeiriaShopping mais preparado, mais resiliente e ainda mais comprometido com Leiria. Porque acreditamos na cidade, na Região e nas pessoas que a fazem crescer todos os dias.
Permitam-me uma referência muito pessoal a toda a equipa da CBRE. Aos colegas que desde o primeiro dia se juntaram a nós no terreno e aos que que fizeram o trabalho invisível de manter os restantes stakeholders informados. O vosso apoio foi e continua a ser fundamental! Obrigado por fazerem parte desta história.

