Entrevista com Guilherme Machado

04/08/2026

Inteligência artificial: quais os domínios com maior potencial de valorização para os centros comerciais

No âmbito da Retail Spaces AI Academy, iniciativa promovida pela APCC em parceria com a NTT DATA e a Google Cloud, entrevistámos Guilherme Machado, Industry Director da NTT DATA, que destaca as áreas com maior potencial de valorização através da inteligência artificial. Sublinha, também, o papel do retalho organizado na definição da relação entre tecnologia e experiência do consumidor.

1. Em que áreas da gestão de um centro comercial identifica maior potencial de valorização através da inteligência artificial?

Há três, e olho para elas por ordem de retorno.

A primeira é a operação do edifício: energia, climatização, manutenção. Os casos internacionais documentados apontam para reduções de consumo na ordem dos 20% sem comprar equipamento novo, porque é software a otimizar o que já lá está. Para além disso, num ativo imobiliário, um euro poupado em custos operacionais não vale apenas um euro. Vale o múltiplo a que esse ativo capitaliza. Isto não é uma questão de tesouraria. É uma questão de avaliação.

A segunda camada é o back-office, a menos vistosa e a mais segura, onde temos visto cortar mais de metade do tempo gasto em tarefas documentais e administrativas.

E a terceira é a monetização da audiência, a única que traz nova receita, e interessa sobretudo a quem já tem os centros praticamente cheios: quando não há espaço por arrendar, o crescimento deixa de vir do leasing e passa a vir do que se souber fazer com os dados de quem visita. Mas as três dependem da mesma base. E é aqui que temos visto a importância da experiência para evitar erros: não se deve investir apenas em casos de uso antes de se investir nos dados que os sustentam. Sem um investimento estratégico nos dados decidido ao nível da gestão, a IA num centro comercial passa a ser apenas despesa e não um investimento.

2. Que fatores considera determinantes para que o setor em Portugal consiga acompanhar, de forma sustentada, o ritmo de transformação digital que se observa noutros mercados?

Três coisas. E nenhuma delas é tecnologia. As pessoas, primeiro: nas sessões que a NTT DATA criou para a APCC, com mais de 50 participantes e com a Google a disponibilizar a plataforma onde cada um construiu e testou os seus próprios agentes, vi profissionais sem qualquer background técnico a chegar a resultados em poucas horas. A barreira já não é o software. É o tempo que damos às equipas para aprenderem. Os dados, a seguir — e volto ao que disse antes: sem o tráfego, as vendas, os contratos e os clientes organizados não há matéria-prima.  IA sem dados até pode produzir uma conversa interessante, mas pouco diferenciadora e sem capacidade de gerar resultados escaláveis. E, por fim, o foco. O Global AI Report 2026 da NTT DATA ouviu 2.567 executivos em 35 países e concluiu que apenas 15% das organizações se qualificam como líderes em IA — e que essas têm 2,5 vezes mais probabilidade de crescer acima de 10% nas receitas. Porquê? Porque escolhem um ou dois domínios e redesenham-nos por inteiro, em vez de multiplicarem esforços em pilotos por todo o lado.

3. Que recomendações deixaria às entidades gestoras de centros comerciais que pretendam iniciar, de forma estruturada, o seu percurso de adoção da inteligência artificial?

Comecem pelos dados, não pelos casos de uso. Saber que dados têm, onde estão e quem é o dono deles é um exercício de semanas que evita anos de projetos falhados. Depois escolham um problema que já lhes custa dinheiro e que saibam medir,  resolvendo-o de ponta a ponta, atribuindo um responsável e uma meta. Um problema resolvido vale mais do que dez pilotos que ninguém acompanha até ao fim. Formem as equipas e aconselhem-se com quem tem experiência real neste e noutros setores antes de comprarem tecnologia, e aproveitem o que a APCC tem posto à disposição do setor: hoje é muito mais fácil e mais barato chegar a formação e a plataformas de experimentação do que era há dois anos, e não é comum uma associação setorial conseguir levar isto até aos seus associados. E tratem a governação e a privacidade desde o primeiro dia. Quem trabalha com dados de mais de 650 milhões de visitas por ano não tem margem para fazer isto mal.

4. Que papel deverá o setor do retalho organizado desempenhar na definição do futuro da relação entre inteligência artificial e experiência do consumidor em Portugal?

O setor tem uma escala que lhe dá responsabilidade: mais de 650 milhões de visitas por ano, 350 mil postos de trabalho e cerca de 5% do PIB, segundo a APCC. E tem uma vantagem que muitos setores não têm: uma associação capaz de sentar à mesma mesa concorrentes diretos para trabalhar aquilo que nenhum deles resolve sozinho. A IA é exatamente esse tipo de tema.

O papel do setor é o de definir, e não apenas o de adotar. Definir em conjunto, e junto dos decisores políticos, que dados fazem sentido recolher, como se comparam de centro para centro e que garantias se dão aos clientes. É um trabalho que se faz uma vez e serve todo o setor.

Em cima disso, o potencial existe individualmente. Há grupos portugueses a gerir portefólios de centenas de ativos, dentro e fora do país, com décadas de dados próprios sobre tráfego, vendas, ocupação e muito mais. Isso não se compra nem se replica de fora: existe apenas dentro destas empresas. E transformá-lo em valor é uma decisão de gestão, porque o retorno não está só na operação, mas também na velocidade e na qualidade das decisões de análise, de investimento e de rotação de ativos. Vale tanto mais quanto maior for a distância entre quem sabe usar esses dados e quem ainda não sabe. É neste caminho que a experiência real de quem apoia estas transformações dentro e fora do setor e em diversas geografias pode ser mais valiosa.

Fica ainda uma última escolha, e essa só o setor a pode fazer: usar a IA para libertar tempo para o contacto humano, em vez de o substituir. Porque no dia em que tudo o resto estiver automatizado, é exatamente isso que vai continuar a trazer as pessoas a estes espaços.

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