Centros Comerciais em Portugal - Evolução favorável num contexto adverso
1. A expansão dos
centros comerciais no actual contexto
económicoApesar da conjuntura internacional
desfavorável registada no último ano,
sobretudo
associada ao aumento dos custos da energia e
à subida dos preços das matérias-primas,
a abertura de novos centros comerciais em
Portugal manteve uma evolução
positiva e em conformidade com os projectos
anunciados. Entre os centros
representados pela APCC registou-se um
acréscimo próximo dos 300.000 m2 de ABL,
2/3 da qual em projectos de raiz inaugurados
em 2008; para 2009 estão anunciados
mais de 380.000 m2 de ABL, sendo 1/3 cativado
pelo Dolce Vita Tejo, em avançada
fase de construção no município da Amadora.
A acrescentar às dificuldades económicas que
marcaram o ano transacto, surge agora
a crise financeira mundial, e os
consequentes efeitos sobre a economia,
induzindo
uma forte pressão sobre os orçamentos e o
endividamento das famílias, a par de uma
quebra na confiança dos consumidores, com
reflexos inevitáveis no seu poder de
compra e no consumo. Em paralelo, a evolução
dos preços da energia despertou a
sociedade para as contradições do modelo
económico vigente e para a sua fragilidade,
face à forte dependência do petróleo. Mas as
preocupações ganham outra dimensão
quando parece ser consensual o
reconhecimento que as alterações em curso
não são
meramente económico-financeiras nem
conjunturais. A desregulação dos mercados,
defendida nos últimos anos como motor para a
dinamização do crescimento da
economia e do emprego, gerou perversidades
já impossíveis de esconder,
ultrapassando os benefícios alcançados e
forçando a medidas públicas até há pouco
inimagináveis. Assim, o que parece estar em
causa é o modelo estrutural intrínseco à
globalização da economia, e que agora até os
mais neoliberais aceitam carecer de
mais (ou melhor) regulação. Este facto irá
provocar alterações acentuadas no modelo
vigente, cujos contornos hoje ninguém ousa
precisar, mas que o futuro próximo irá
pondo a descoberto, desenhando-se em função
das novas relações de força em
recomposição. Num contexto de complexidade
crescente, marcado pelas clivagens
sociais, instabilidade e incerteza, e ritmos
diferentes a que as mudanças se operam, a
actuação dos agentes económicos
(consumidores incluídos) é inevitavelmente
afectada.
A dimensão da crise pode ameaçar a
hiper-valorização do consumo como forma de
promoção social, já que a incerteza quanto
ao futuro começa a criar alguma
instabilidade mesmo nos mais confiantes ou
desatentos. No que aos centros
comerciais diz respeito, esta situação pode
ter reflexos a vários níveis: maiores
restrições ao crédito para o desenvolvimento
dos projectos; maior contracção no
investimento por parte dos lojistas (por
razões similares, a que acresce a eventual
redução do consumo); redução no valor e no
retorno das rendas; maior diferenciação
dos padrões de qualidade entre centros (ou
diferenciação mais evidente de nichos
dentro dos centros), etc.
A par destas alterações, é indispensável
referir a crescente consciência social em
torno
da questão da sustentabilidade, ainda com
elevada opacidade ao nível da sua
operacionalização no contexto territorial.
Este paradigma, em busca de afirmação
desde a última década do século passado,
estrutura todo o pensamento do “Novo
Urbanismo” (cidade compacta, mistura de usos
urbanos, primazia ao transporte
colectivo e aos espaços públicos como
elementos de convivialidade), como
alternativa
ao crescimento urbano extensivo orientado
pelo automóvel, começando a influenciar a
concepção das políticas territoriais. Ao
favorecer o crescimento urbano por
colmatação de tecidos fragmentados em
prejuízo do crescimento por extensão dos
perímetros urbanos, esta nova abordagem pode
criar dificuldades acrescidas na
localização de empreendimentos comerciais
indutores de novas frentes de
urbanização. Contudo, pode conduzir a uma
maior selectividade na escolha das
localizações e traduzir-se em projectos
(novos ou reestruturações) de qualidade e
bem
integrados no tecido urbano (usos múltiplos,
espaços públicos abertos,…), por vezes
já referenciados não como “shopping centers”
mas como “lifestyle centers”.
Face ao exposto, e num contexto onde se
poderão verificar sintomas de saturação do
mercado em certos formatos e localizações,
como irão os responsáveis pela promoção
e gestão dos centros comerciais em Portugal
adaptar-se a um (quase certo) quadro
mais restritivo do financiamento e do
consumo?
É sabido que as reacções não têm
visibilidade imediata. Muitas vezes os
projectos
pensados ou em fase de construção, pelo
investimento já envolvido, dificilmente são
travados, prosseguindo a sua concretização.
Mas é expectável um abrandamento do
lançamento de novos projectos, sobretudo se
os indicadores de consumo vierem a
revelar a quebra perspectivada até pelos
mais optimistas.
As preocupações com a sustentabilidade
urbana e ambiental, já praticadas por alguns
centros comerciais (embora prioritariamente
motivadas pela necessidade de redução
dos custos de funcionamento), devem adquirir
uma nova dimensão (desde a
concepção do projecto) e notoriedade /
visibilidade, podendo ser transformadas em
factor de diferenciação qualitativa. Entre
essas preocupações destacam-se o projecto
de arquitectura ecoficiente, o recurso a
sistemas alternativos de energia, a
separação
selectiva e a reciclagem dos resíduos, a
articulação com as redes de transporte
público.
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